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Histórias de quem adotou um animal especial

Publicado em 25 de Feb de 2013 por Fernanda Ruiz Comentar

Relatos de quem teve compaixão e adotou animais maltratados e abandonados à própria sorte

Texto: Micheline Matos / Foto: Vanessa Fermino

"Um cão paraplégico dá trabalho, mas o amor que eu recebo compensa

qualquer cansaço", diz Keké, dona de Felipe

Foto: Vanessa Fermino

 

O aumento do número de Organizações Não Governamentais (ONGs) e protetores independentes de animais reflete uma mudança positiva, mesmo que tímida, da forma de encararmos esses seres dentro de nossa sociedade. É no que acredita Nina Rosa, ativista pelos direitos dos animais, fundadora e presidente do Instituto Nina Rosa: “As pessoas estão valorizando mais a vida animal e tendo consciência de que eles têm direitos que não estão sendo respeitados, mas que devem lhes ser garantidos.” Porém, o abandono e maus tratos de animais domésticos no Brasil ainda é algo tão banalizado que a falta de estatísticas sobre o tema é um sinal do descaso, embora uma Lei Federal tenha sido criada para protegê-los em 1998. Os que sobrevivem acabam numa imensa lista de adoção nas instituições ou nas mãos de protetores espalhados por todo o Brasil. Fêmeas, idosos, bichos sem raça definida, deficientes e os de pelagem preta integram a lista de cães e gatos mais difíceis de conseguir um lar. A seguir, confira histórias de quem adotou pets com esse perfil.

 

ABANDONADO NO PET SHOP

O nome Felipe foi dado em homenagem ao piloto brasileiro de Fórmula 1 Felipe Massa. Mas como um cachorro paraplégico pode ser comparado a um piloto? Keké Flores, de São Paulo-SP, cabeleireira e atual dona do cão, diverte-se ao contar sobre quando o seu nêgo - como carinhosamente o chama - foi adotado por ela: “Era dia de Cãominhada no Centro de Zoonoses (CCZ), onde sou voluntária. Uma pessoa doou as rodinhas para ele e pela primeiravez o Felipe correu feito um louco de alegria. Fiz até um vídeo disso! Ali ele passou a ser o meu Felipe.” Animais como o Felipe estão praticamente condenados a nunca mais terem um lar de verdade, pois são muito mais difíceis de serem adotados que outros pets. E as histórias de animais especiais deixados à própria sorte são, infelizmente, variadas e muito numerosas. O  vira-lata Felipe, por exemplo, foi abandonado em um pet shop já com essa deficiência. “Eu já tinha cinco cães e, com a chegada do Felipe, sabia que meu trabalho dobraria,mas foi uma benção”, diz.

ADAPTAÇÃO DOS PELUDOS

Para quem ainda tem dúvidas sobre adotar ou não um animal especial e como agir diante dadeficiência dele, o veterinário Wilson Grassi, gerente executivo do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, explica que os pets lidam com isso de forma muito mais simples e prática do que os humanos. “Quando bem tratados, esquecem tudo e passam a viver da melhor forma, sem mágoas. Alguns, muito sofridos, podem ter alguma espécie de trauma, tornando-se medrosos e agressivos, mas são casos raros. Hoje em dia existe tratamento para praticamentetodos os males que os atingem”, completa o profissional. Sobre a preparação da casa para receber um animal especial, o especialista explica que, “em primeiro lugar, é preciso querer terum animal de estimação com necessidades especiais e, segundo, adaptar o local para as condições físicas em que ele se apresenta, pensando sempre em favorecer o seu conforto.” No caso do Felipe, a adaptação ao novo lar teve algumas resistências. Ele estranhou os outros cães e até matou o coelho da sua dona, que mesmo assim não desistiu dele. “O eduquei com um borrifador”, conta Keké, ressaltando que as dificuldades nunca superam as alegrias. “Fácil não é, temos de mudar algumas rotinas, mas ao mesmo tempo é gratificante, pois eles são muito carinhosos, carentes e fazem nossos dias muito especiais. Felipe mudou minha vida e me distrai de qualquer tristeza. O olhinho dele brilha quando pego a cadeirinha e falo: ‘Vamos?’ Ele pula de felicidade com as patinhas da frente!”, descreve emocionada. Assim como Felipe, muitos cãezinhos passam por problemas que os impedem de andar normalmente, seja em razão de paralisia ou displasia. Nesses casos, a cadeira de rodas, feita de hastes de ferro, é uma ótima solução. As patinhas traseiras recebem sustentação e ficam na vertical com a ajuda do aparelho, normalmente apoiadas por tiras de pano ou de couro. A movimentação acontece por meio das rodinhas nas bases de cada haste, que devem estar alinhadas abaixo do abdome do cão. Assim, é possível que o bicho tenha suporte para a coluna e consiga ficar na posição normal, com os quatro apoios, e até andar, correr e ter uma vida quase normal. Para utilizar a cadeira é preciso estar bem de saúde e não pode estar muito acima do peso. “Felipe engordou alguns quilos desde que foi adotado e agora tem dificuldade de usar a cadeira de rodas. A coluna sofre com o peso e as patas da frente não estão fortes o suficiente para ajudarem na movimentação”, conta Keké. As constantes dores de coluna do cão dificultaram nessa questão, pois a dona não podia levá-lo para longos passeios. Além disso, Felipe sofre com infecções urinárias mensais. “Ele só melhorou depois que introduzi o uso de florais. Foi ótimo porque, além de auxiliar na infecção, também o deixaram mais calmo.” Os medicamentos homeopáticos são preparados com ingredientes naturais, como flores, ervas e minerais, para aliviar uma série de doenças em seres humanos e em animais. 

OLÍVIA: UMA GATINHA VENCEDORA

Para a comerciária Carolina Garcia, de Belo Horizonte-MG, adotar bichos que sofreram maus tratos é tão natural que sua lista de adotados passa de uma dúzia, sendo que alguns vivem em clínicas. No seu apartamento mora uma turminha de 11 felinos, mas a protagonista dessa história é uma gata preta chamada Olívia. “Ela tinha uma bala alojada na coluna, não conseguia urinar e estava com vários tipos de infecção. Queriam matá-la por piedade, mas alguém me avisou e corri para buscá-la. Ela se arrastava, sem conseguir andar”, descreve Carolina recordando o primeiro contato. Foram meses de luta tentando salvar a gatinha. Foi feita uma cirurgia de urgência e um ano de fisioterapia, mas, mesmo assim, Olívia perdeu alguns movimentos. Para urinar depende totalmente de sua dona, que tem de manipular sua bexiga várias vezes ao dia com massagens. Tudo para que sejam evitadas novas infecções e afastado o risco de a bexiga estourar. “Depois de tanta luta, eu não poderia deixá-la. Além do que, ela precisará de cuidados especiais para sempre”, explica Carolina. “Olívia é uma gatinha feliz, amiga dos meus outros bichos”, completa, reafirmando seu amor incondicional.

 

VOLUNTARIADO

Foi em meio a uma manifestação contra a eutanásia que Keké resolveu ser voluntária do CCZ, em maio de 2009. De lá para cá, participou de todos os eventos e já adotou alguns cães. Entre eles Jujuba e Xiquinha, cegas dos dois olhos. Sobre o convívio com elas, Keké conta que não há diferença na criação. “Meu maior cuidado é não mudar os móveis de lugar, para que elas não se sintam perdidas em casa. Mas as duas cadelas são muito espertas. Sobem as escadas sozinhas para brincar na parte externa da casa”, relata.

DECIDIU ADOTAR?

O CCZ é responsável por prevenir e controlar as principais zoonoses (doenças que podem sertransmitidas aos humanos), como raiva e doença de chagas, e por capturar animais de rua, diminuindo o contágio de doenças entre animais e os acidentes com carros. Diversas unidades estão espalhadas por todo o país, e em todas você pode adotar esses pets! Que tal considerar a possibilidade de ter um bichinho especial? “Quem ama, ama o animal, e não a sua raça”, defende Gabriela Netto, veterinária do Clube dos Vira-Latas

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